Ele tem a natureza do Rio de Janeiro para inspirar. Da música que ouve, 85% é cantada em inglês. E sua bebida, em geral é francesa. O que pode sair de tal dieta? A resposta é o cantor Ed Motta, que completou 20 anos de uma carreira na qual viveu em plenitude seu dom de degustador, seja da boa música ou do bom vinho. "Adoro ter um sábado livre para tomar meus vinhos prediletos junto à minha coleção de vinis (a maior entre as tantas feitas pelo cantor, com 20 mil discos). Só quando vou para a segunda garrafa é que busco outra coisa pra fazer, pois tenho medo de riscá-los", diz, com um riso solto.
- E tem América Latina nessa coleção?
"Tenho vários do Chile e da Argentina. Eu gosto por exemplo de um chileno chamado Matías Pizarro, sou fã do grupo Fulano, gosto dos primeiros discos do Congresso. Mas, em geral, prefiro ficar com os discos argentinos, e do Chile levar os vinhos", ri. "Meus vinis latino-americanos prediletos são Bronca Buenos Aires, de Jorge Lopez Ruiz, e Bajo Belgrano, de Luiz Alberto Spinetta. Destaco o Spinetta porque o considero o melhor artista pop de toda South America. O Brasil não tem nenhum artista pop como ele." E quanto aos vinhos chilenos? "Também são vários, mas posso destacar o Domus Aurea, que gosto muito, e o Syrah da vinícola Matetic."
Motta fala desses caldos do bom viver não apenas como músico, já que tamanha dedicação o transformou em um especialista diferente, um sommelier autodidata que ganhou seções de crítica enológica em revistas e até assinou a carta de vinhos de um restaurante famoso da capital paulista.
A paixão por essa bebida tomou força na vida de Ed Motta em 1994, quando mudou-se para Nova York. Foi lá (como aconteceu com Francis Ford Coppola, mas em Paris), que foi catequizado pela vinicultura francesa, graças à loja de vinhos que ficava na esquina de sua casa, especializada nas marcas desse país. "Até hoje, no dia a dia, fico mergulhado na França. Busco um beaujolais, um Côtes du Rhône genéricos", afirma. E o que o tornou um crítico de vinhos tão especial? Saber mesclar naturalidade e sofisticação. Um anti-enochato? "Não necessariamente. Gente pedante tem em qualquer lugar, dá como banana. Para mim, vinho é um prazer, não se pode castigá-lo com verborragia: o entendo como algo emocional, natural."
Sua fixação pelos varietais franceses, entretanto, não o impede de identificar a marca vinícola que se consolida na região. "Os vinhos da América do Sul têm como característica a opulência da fruta, mais agressiva. Um balanço fruta-terra que dá a sensação de natural, de pouca intervenção do homem, que é o ideal", diz. "E no Brasil também há uma geração relativamente recente que é super." Mas admite ainda não ter em sua coleção as figurinhas do vale do Rio São Francisco. "Não tive oportunidade de conhecer muitos vinhos produzidos no Nordeste, apenas o Rio Sol, que é interessante, mas não premium." Para Motta, os bons exemplos ainda se concentram no sul do País. "O Merlot da vinha Vallontano lembra muito o vinho francês, é delicado, tem fruta balanceada, não é tão doce quanto os do novo mundo", diz. "Outro muito bom é o Minimus Anima", que é uma proposta de ateliê de vinho de autor, característica que interessa ao cantor.
Isso porque, com a mesma paciência de quem percorre sebos buscando novas pérolas para sua coleção de vinis, ele também se dedica a achar néctares fora do eixo dos blockbuster. "Como no mundo novo inteiro, como na música, no cinema, todos estão voltados ao negócio, ao dinheiro. E aí, tudo que é classificado como correto costuma ser muito parecido um ao outro", dispara. "Para mim, por exemplo, o melhor vinho branco que já experimentei feito no Brasil e em todo o novo mundo é o Cave Ouvidor Insólito Peverella, produzido em Garopaba, Santa Catarina. Mas foram apenas 500 garrafas, coisa de colecionador."
E, como músico, hoje Ed Motta também se sente mais o vinicultor das 500 garrafas do que o popular rei do soul funk que dominava as rádios e discotecas com seus hits, no final dos anos 90. "Eu gosto disso também. Mas é como se fazer soul funk fosse produzir um beaujolais, aquele vinho mais frutadinho, mais moranguinho, para acompanhar um queijo. Aí eu fui elaborando, buscando um vinho mais lá do norte da Borgonha, um Romanet", compara, referindo-se a outra de suas predileções.
Uma transformação que vem surpreendendo o público desde 2001, ao lançar Dwtiza, onde, ao invés de cantar, usa sua voz para frasear os instrumentos. A mais recente colheita desse processo de maduração é o Chapter 9, lançado no final de agosto. Cantado em inglês, sem floreios vocais e de refinado instrumental, continua distante da efervescência do começo da carreira, agora com tons introspectivos.
"O disco realmente tem um temperamento melancólico em algumas canções. Talvez seja a influência que tive do norte-americano Scott Walker, um cara de canções com um tratamento assim meio chuvoso", conta.
- E o que me recomendaria para acompanhar a degustação de seu disco?
"Você está no Chile, né? Então eu começaria com umas vieiras cruas, com umas ervinhas e torradinhas, acompanhadas de um Chardonnay Matetic. Depois um pato assado, com batatas assadas na gordura dele, e um Cabernet Sauvignon 97 Antyal - eu até tenho uma garrafa dele aqui comigo - que, se não é o único, é o primeiro biodinâmico do Chile."
Aí fica a dica para quem deseja desfrutar de uma experiência 100% assinada pelo mestre soul-jazz, anárquico-autoral, brasileiro-universal e enogastronômico Ed Motta.